A água, principal causa de patologias na construção
As águas subterrâneas podem causar importantes patologias nas edificações e nas obras de engenharia civil, tanto durante a construção quanto na fase de uso. A constatação é inequívoca: 70 % das patologias observadas nas edificações são devidas à água, metade das quais decorrem de uma impermeabilização insuficiente ou deficiente, ou mesmo da ausência total de drenagem.
A identificação da água no estudo de um terreno destinado à construção é fundamental: condiciona a solução construtiva e o custo da obra. A água pode alterar consideravelmente as propriedades mecânicas de certos solos e afetar a estabilidade de uma encosta ou da base de uma obra.
Os reservatórios de água na Terra
Em toda a hidrosfera, os oceanos concentram a esmagadora maioria da água; as águas subterrâneas vêm em terceiro lugar, atrás dos oceanos e das geleiras. A tabela abaixo dá uma visão geral dos reservatórios de água e do seu tempo de residência (duração média durante a qual uma molécula de água ali permanece).
| Reservatório | Volume (1015 m³) | % do total | Tempo de residência |
|---|---|---|---|
| Oceanos | 1.350 | 97,0 | 2.500 anos |
| Geleiras | 33 | 2,4 | 1.000 a 10.000 anos |
| Águas subterrâneas | 8 | 0,6 | 1.500 anos |
| Lagos | 0,1 | < 0,01 | 17 anos |
| Água no solo | 0,070 | < 0,01 | 1 ano |
| Água na atmosfera | 0,013 | < 0,001 | 8 dias |
| Rios | 0,0017 | 0,0001 | 16 dias |
| Água na matéria viva | 0,0011 | 0,0001 | algumas horas |
| Total | 1.391 | 100 | — |
O curto tempo de residência da água no solo (cerca de 1 ano) traduz seu papel de interface dinâmica entre a atmosfera, os aquíferos profundos e os cursos d'água: é um compartimento que se renova rapidamente, o que explica sua sensibilidade às chuvas e às secas.
As formas da água no solo
Na escala macroscópica
Distinguem-se várias formas de água no solo conforme sua localização e mobilidade:
- A água livre (gravitacional) — circula sob o efeito da gravidade nos poros conectados. Alimenta os aquíferos e pode ser captada por drenagem ou bombeamento.
- A água capilar — retida nos poros finos pelas forças de tensão superficial, acima do nível do lençol (franja capilar).
- A água adsorvida (ligada) — fixada à superfície dos grãos argilosos por forças eletrostáticas; não escoa mas influencia fortemente o comportamento mecânico.
- A água de constituição — quimicamente ligada aos minerais, não intervém no comportamento geotécnico.
Na escala microscópica
No interior do meio poroso, a água preenche os espaços entre os grãos. Conforme o tamanho dos poros e a pressão aplicada, ela pode estar:
- Sob pressão positiva abaixo do nível do lençol (água livre)
- Sob pressão negativa (sucção) acima do nível do lençol, na franja capilar
Capilaridade e sucção
A capilaridade é a capacidade da água de subir pelos poros finos do solo acima do nível do lençol, sob o efeito da tensão superficial. Quanto mais finos os poros, maior a altura de ascensão capilar.
| Tipo de solo | Altura de ascensão capilar |
|---|---|
| Areia grossa | alguns cm |
| Areia fina | 20-50 cm |
| Silte | 1 a 3 m |
| Argila | até 10 m e mais |
Segundo Hansbo.
A sucção representa a pressão negativa que se exerce na água capilar ou sobre a água adsorvida. É um parâmetro-chave para compreender:
- a retração-expansão dos solos argilosos (ciclos de umedecimento-secagem)
- a coesão aparente dos solos parcialmente saturados
- as ascensões de água por capilaridade nos concretos enterrados
A permeabilidade
A permeabilidade de um solo caracteriza sua capacidade de deixar a água atravessá-lo. Concretamente, é a velocidade com que a água pode atravessar uma camada de solo sob um gradiente hidráulico unitário (por exemplo 1 cm/s para uma areia limpa).
A lei de Darcy relaciona a vazão Q com a permeabilidade K:
Q = K · S · (ΔH / L)
- Q: vazão (m³/s)
- K: coeficiente de permeabilidade (m/s)
- S: seção atravessada (m²)
- ΔH / L: gradiente hidráulico (adimensional)
Ordens de grandeza
| Tipo de solo | K (m/s) | Comportamento |
|---|---|---|
| Cascalhos limpos | 10⁻¹ a 10⁻³ | Muito permeável |
| Areias limpas | 10⁻³ a 10⁻⁵ | Permeável |
| Areias siltosas | 10⁻⁵ a 10⁻⁷ | Pouco permeável |
| Siltes, argilas siltosas | 10⁻⁷ a 10⁻⁹ | Muito pouco permeável |
| Argilas compactas | < 10⁻⁹ | Praticamente impermeável |
O conhecimento da permeabilidade é fundamental para dimensionar os bombeamentos, as drenagens, as contenções sob lençol e para avaliar o comportamento a longo prazo de uma obra na presença de água.